quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

ensaio



no princípio não existia a vertigem. subíamos das planícies até à torre da montanha mais alta da terra. daí, lançava-mo-nos para as estrelas. em bicos de pés, começávamos por levitar ligeiramente. quando sentíamos o corpo leve como o algodão doce, abríamos os braços e iniciávamos a viagem ao irracional. tínhamos os olhos presos nos olhos do outro e sorríamos da profundeza de nós para o vazio. depois, cresciam-nos asas e rasgávamos o céu, até desaparecermos da vista dos homens e dos pássaros.

para lá do azul (da terra), escutava-se tim buckley, peter hammill, john cale e "in a manner os speaking". a música vinha de dentro de ti e abandonava o teu peito em espiral. percorria um caminho sem tempo até ao meu (peito) e preenchia-o de pontos de luz, da mesma forma que o relógio justifica o dia. nessa precisão, largávamos a pele, a carne e os ossos e caminhávamos um para o outro: eu luz, tu luz.

quando, por fim, nos reduzíamos a uma única linha, nasciam de nós outras estrelas, que iniciavam um longo percurso até ao confins do universo. ainda permanecíamos algum tempo entre a terra e o vazio, confundidos com as estrelas mais velhas, a preencher a luz de matéria. depois, regressávamos aos braços, às pernas e à planície. à nossa espera, estavam apenas as flores, as abelhas, e as crianças. o resto da humanidade ou dormia ou contava o tempo e o dinheiro.

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

led zeppelin - stairway to heaven

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

abraço absoluto




existe um pedaço de areia que sabe de abraços
(longe do mundo, longe da civilização)

existe um pedaço de areia e uma tecto de estrelas
que abrigam o abraço e nele, confundidos, nós

responde-me por que razão os teus braços são tão leves?
por que razão não sinto o peso das tuas mãos nas minhas?

responde-me por que razão escuto as palavras que não dizes?
por que razão sei quem és quando olho para o fundo dos teus olhos?

quando não pensamos. sim, aí reside o absoluto.

a eternidade dos segundos

a flor da eternidade



contigo, todos os segundos são eternos
prolongam-se pelo resto da noite, até ao teu regresso
do círculo de fogo, das laranjas, da canela

pelo meio
(do dia)
as palavras encontram um sentido no absurdo
e a música chega com memórias frescas
(ou em forma de prenda)

desenham-se sorrisos que desejam repousar
um no outro e inventar
o beijo

com o consentimento do universo




quando a ponta dos teus dedos inventa tocar
uma música na ponta dos meus dedos, eu fico
estática e atenta ao movimento de todos os (teus)
sentidos que, seguramente, quero perpetuar

chegas e dizes: "fecha os olhos e respira-me. eu vim
até ti com o consentimento do universo". "por isso
recebe-me com o silêncio da tua eternidade"

sabes, tu que não existes,
na hora em que chegas,
o chão abre-
se

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

entre a terra e o céu

foto: joão duque


não é no escuro que quero permanecer
entre quatro paredes de granito
e o frio da pedra em bruto

entre a terra - onde jazem pedras livres

e o céu - em silêncio absoluto
reside a combinação perfeita
entre os dois mundos.

é aí que não somos nem Homens, nem deuses
é aí que aguardamos todas as decisões

será a terra que toca o céu, com as suas cruzes imponentes?
será o céu que toca a terra, com as nuvens a navegar sem destino?

num único lugar,
as nuvens abrem um portal de luz
e eu deixo a terra e as raízes
para regressar a casa

terça-feira, 2 de Junho de 2009

entre o sono e o sonho


existes mesmo?(.)